Sentou-se no sofá, lembrou da conta que vencia, olhou no relógio, já passavam das nove da noite.
Pagaria multa,
Mais uma.
Tinha sede.
Pegou o copo na mesa, derrubou as chaves no chão, teve preguiça de agachar-se para pegá-las, deixou-as repousando no chão.
Lavo o copo, o café no fundo não saia, teve que usar o sabão.
Detestava o cheiro do sabão nas mãos.
Lembrou-se das vezes que ela lhe pedia para ajuda com a louça.
Agora lembrando-se disso o cheiro nem lhe parecia tão ruim.
O que poderia ter feito?
Onde ela estaria?
Por que deixá-lo sem nem ao menos lhe dize o porquê?
Era só nisso que pensava.
Encontrou na geladeira a caixa de comida chinesa.
Olhou e lembrou do último jantar.
Pensou que poderiam ter saído, terem ido ao shopping ver vitrines ou apenas ido a padaria que ela tanto gostava.
Mas era dia de jogo, pedir comida em casa era mais fácil.
Pensou nos vários caminhos fáceis que optou e arrependeu-se, pois aquele estava sendo o mais difícil.
Pegou a água gelada colocou no copo e bebeu em apenas um ole.
Voltou para o sofá, ligou a TV.
A TV era a mesma, aquela que sugava seu interesse todas as noites.
Que falava e não cobrava que ele estivesse ouvindo.
A amiga que nas noites o hipnotizava.
A companheira que nada exigia.
E olhando para a TV se sentiu muito mal.
Quantas horas desperdiçadas absorto em seu mundo construído e inventado.
Quando o mundo real vibrava nos olhos dela e ele nem via.
Mais fixado estava olhando para a TV.
Desligou a TV e agradeceu não ser agressivo, pois se o fosse teria arremessado o controle na tela.
Levantou, abriu novamente a geladeira, olhou para o fogão e lembrou dela preparando o jantar, com seu sorriso de lado ecom aquelas covinhas que um dia tanto lhe chamaram a atenção.
O que teria acontecido?
Nenhum telefonema, nenhum recado na porta da geladeira, nem um torpedo.
Ela simplesmente fez as malas e fora embora.
Fechou a porta sem pegar nada, não tinha fome, nem sede.
Dois dias sem saber dela. Ela não atendia suas chamadas.
Decidiu que se ela o havia deixado, ele iria tocar a vida.
Mas que vida?
Só existia o pensar nela.
Foi ao banheiro.
Olhou-se no espelho, a barba por fazer há dois dias.
Era do jeito que ela gostava, dizia que arrepiava quando ele a beijava.
Decidiu olhando-se no espelho que daria mais um dia: 3 dias era um bom tempo.
Ela tinha que fazer algum contato.
Ainda restavam roupas no guarda-roupa.
Os livros estavam lá e ela voltaria, nem que fosse para pegar os livros.
A cabeça dele dava voltas. Decidiu tomar banho.
No box encontrou uma calcinha dela secando na torneira.
Justo a preta de rende que ele tanto gostava.
Sentiu saudade do corpo dela.
Do beijo e do sorriso de lado.
Deu um pequeno grito de desespero como que querendo parar os pensamentos.
Mas pensamentos não ouvem, eles apenas falam.
E em silêncio terminou seu banho.
Voltou para o sofá, só de toalha e lembrou que ela ficava brava quando ele sentava molhado no sofá, mas não falava nada, só balançava a cabeça.
Ele tentou ligar novamente, na esperança de ouvir a voz dela, de ter uma explicação, ao menos uma palavra que pudesse por fim à angustia do não saber, mesmo que fosse algo pior.
Mas o que poderia ser pior do que não saber o que se passava, o que poderia ser pior do que falar sozinho com seus próprios pensamentos, suas conjecturas, suas dúvidas e a maravilhosa imaginação destrutiva?
Haveria outro em sua vida?
Será que havia se apaixonado?
Será que diante de tanta rotina havia encontrado algo novo que a tivesse encantado e a levado para longe?
Será que acabara o amor?
Outro grito: Para! Chega de pensar.
Esse foi mais alto que o da hora do banho.
Ele começava a acreditar que ficaria louco.
O sinal da caixa de recados do celular apitou como fim da mensagem.
Ele só percebeu nesse momento que havia registrado um grito gutural no celular dela.
Mas não se preocupou, era o que estava sentindo.
Olhou no relógio, já passavam das duas da manhã.
A segunda-feira avançava e ele só pensava que teria que acordar cedo e voltar para sua rotina, mas que a melhor parte da sua rotina havia ido embora e ele nem sabia o porquê.
Foi para o quarto e atirou-se na cama, chorou.
Acordou atrasado e sentiu cheiro de café coado e de ovos.
Correu para a cozinha e foi recebido com o mais iluminado dos sorrisos de lado.
Antes que ele falasse qualquer coisa ela foi em sua direção e deu-lhe um beijo na boca como dava todas as manhãs.
Desculpou-se por não ter ido ao quarto chamá-lo, mas havia adormecido no sofá quando chegara.
O ônibus havia atrasado e ela não queria atrapalhar o sono dele, pois sabia que se ele acordasse não voltava a dormir.
Preferiu dormir no sofá.
Ele olhava para ela como que querendo entender, mas preferiu apenas abraçá-la, com medo de que fosse tudo um sonho.
Ela desejou-lhe um ótimo dia e foi para o banheiro tomar banho e preparar-se para ir para o trabalho.
Ele ainda parado, sem entender nada, tomou o café em um único gole e decidiu que quando voltasse a noite conversaria com ela, não queria chegar mais atrasado do que já estava.
Procurou as chaves na peça ao lado do sofá, nos bolsos da calça jeans que estava no dia anterior, na mesa da sala e quando já começava a ficar nervoso chutou o molho de chaves no chão, agachou-se para pegar e viu um bilhete.
Pegou -o nas mãos, pegou as chaves, saiu e enquanto esperava o elevador leu:
"Meu amor,Vou para a casa da Cris em BH direto do trabalho passar o fim de semana. Ela me ligou desesperada, precisa enrolar 500 lembrancinhas para o casamento e precisava da ajuda da dama de honra/madrinha dela,
Como sei que você detestaria duas mulheres na sala te atrapalhando, sugeri ir para lá, até para facilitar as coisas.
Aproveita e chama os meninos para um pôquer.
Ah! meu celular parou de vez, vou deixar na assistência antes de ir para a rodoviária.
Se quiser me liga lá: 031 9539 8833.
Beijos e até domingo a noite.
Sua, sempre sua!"

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